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17 de dez. de 2010

homem que xinga mulher

Hoje me peguei tuitando uma frase que me tomou de assalto: 

Homem xinga mulher de vagabunda e mal-comida. O que está por trás disso: ele come mal a mulher dele e ela está dando pra outro. Certo.

Duas coisas me levaram a escrever isso. A primeira é que fui vítima, há alguns dias, de tais xingamentos. A outra é que li um post do Alex Castro que não permite a ninguém ficar em cima do muro a respeito de temas polêmicos como machismo e feminismo.

Vou tentar resumir a história: eu estava prestes a atravessar uma rua, de mão única e pista dupla, no bairro Jardim Botânico, em Porto Alegre. Havia uma faixa de pedestres naquele ponto, mas sem semáforo. Eu estava ainda na calçada e um motorista, querendo ser gentil ou simplesmente respeitar a faixa, parou para eu passar. Mas lá atrás vinha um carro numa velocidade um pouco alta e eu, cautelosa, esperei para ter certeza de que poderia cruzar a rua com segurança. O motorista que vinha correndo se deu conta do outro carro parado e decidiu parar também, abruptamente. O problema é que o que vinha logo atrás dele não conseguiu frear a tempo e bateu.

Tudo aconteceu em segundos. Eu me mantive na calçada, aguardando o desfecho - que deveria ter sido apenas poder atravessar a rua, mas não foi. O carro que parou primeiro não foi afetado e o motorista resolveu escapar dali rapidinho. Eu, depois do susto, saí andando, meio nervosa. Não gostaria que nada daquilo tivesse acontecido.

Mas o motorista do carro que sofreu a batida achou que alguém deveria levar a culpa pelos estragos. E desatou a proferir os mais inacreditáveis impropérios. Começou perguntando "vai pagar o conserto, vagabunda?" e terminou com "eu devia ter te atropelado, vadia mal-comida, o que te falta é um pau bem grosso, sua vagabunda". 

Pois é.

Eu não tenho sangue de barata e rodo a baiana sempre que acho necessário, mas dessa vez decidi cair fora sem olhar pra trás. Se esse cara era capaz de me xingar assim, bem possível que tivesse uma arma no porta-luvas ou que me desse um soco na cara sem o menor constrangimento. Eu é que não ia me arriscar. O máximo que consegui foi olhar pra ele e dizer "ah tá, era só o que me faltava". Mas vendo os olhos cheios de ódio do tal sujeito, tomei meu caminho.

Poderia esse post ser sobre a segurança no trânsito, faixa de pedestres e tal. Mas o mais incrível nessa história, pra mim, não foi o incidente em si, mas o repertório do cara. Não foi a primeira vez que ouvi um homem ofender uma mulher desconhecida dessa maneira. Eu mesma já fui vítima em outras ocasiões. Lembro-me especialmente de uma - e que também foi no trânsito, por que será? - em que eu não deixei entrar na minha frente (dessa vez eu estava dirigindo) um motorista que estava na contramão dando uma de malandrinho para escapar de um congestionamento. Claro que eu não teria feito isso se o cara estivesse prestes a ser esmagado por um Scania, mas não era o caso. Esse senhor colocou o carro dele bem ao lado do meu, abriu o vidro e me chamou de "bocetuda". Dependendo do contexto isso até poderia ser um elogio de gosto duvidoso, mas não, era um xingamento.

Então eu fiquei a pensar por que certos homens gostam de ofender as mulheres acusando-as de vagabundas e afirmando que suas vidas sexuais não são boas. Será que eles acham que isso é o que de mais terrível pode acontecer a uma mulher? Ou será que eles estão apenas projetando nesse insulto algo que os incomoda, talvez inconscientemente: eles não são capazes de dar prazer às suas próprias mulheres, fazem sexo como se fossem máquinas de ejacular, e lá no fundo sabem que elas são insatisfeitas e que, quem sabe (tomara!), estão considerando seriamente a hipótese de colocar-lhes um belo e merecido par de chifres?

Não quero generalizar, até porque não são todos os homens que xingam mulheres dessa forma, mas um cara que diz uma coisa dessas no calor de uma discussão ou de uma situação de estresse deve ter algum problema. Com tantas outras coisas para dizer – sem contar a opção de não dizer nada, porque ele não estava com a razão –, ele escolhe justamente isso.

Por outro lado, dia desses, em conversa com duas amigas, uma delas contou que xingou um motorista (ó o trânsito de novo...) que buzinou quando o sinal tinha recém aberto, o apressadinho. E ela o chamou de "piça curta"! Poderíamos deduzir, usando a mesma lógica, que minha amiga disse tal coisa porque está descontente com o tamanho do pênis de seu namorado, marido, comedor ou o que for? Difícil. É claro que ela não sabia o tamanho do membro do cara, mas certos comportamentos tipicamente masculinos, como dirigir em alta velocidade, fazer manobras perigosas, querer estar sempre na frente e ser esquentado e brigão, são comumente associados a uma necessidade de compensação. O cara pode até nem ter o pau pequeno, mas a pergunta que fica é: por que ele precisa tanto se autoafirmar com atitudes violentas, arriscadas, grosseiras? Alguma frustração ele deve ter.

Daí vem o Alex Castro falar sobre machismo e feminismo e eu concluo que o cara que tenta atingir a dignidade de uma mulher dizendo que ela é puta e mal-comida ainda não conseguiu digerir o fato de que hoje uma mulher pode dar para quem quiser e quando bem entender. Há! Esse é o ponto. Ele é um machista, com toda a certeza. Pois ele está vendo que as mulheres finalmente conquistaram os tais direitos iguais reivindicados pelo feminismo e entre eles está ser dona do próprio corpo e fazer com ele o que bem entender. Mas ele não aceita isso. Ele acha que essa mulher emancipada é, por definição, vagabunda. Então é óbvio que ele não vai assumir a culpa – na frente de outros homens! – pela barbeiragem na qual se envolveu se ele pode culpar a mulher que está na calçada esperando para atravessar a rua. Ele parte do princípio de que essa mulher – ou de que toda mulher – é uma vagabunda mal-comida, seja ela quem for. Ele quer atingir o gênero inteiro. Queria saber o que ele teria dito se um homem estivesse na calçada. Bom, mas aí talvez o primeiro motorista não tivesse parado, porque ele quis ser educado com uma mulher... vejam só, quanta contradição. Gentileza e estupidez no mesmo episódio.

Esse é sem dúvida um assunto para psicanalistas, antropólogos, sociólogos. Mas também são situações cotidianas com as quais nos deparamos às vezes e que nos fazem pensar e questionar “o que leva uma pessoa a se portar assim”. Eu ainda acho que um cara desses tem algum problema sério em casa que não está conseguindo resolver. Ele, com o machismo dele, não é capaz de enxergar um palmo na frente do nariz e muito menos o que está prestes a crescer entre seus cabelos – se é que já não cresceu.

11 de dez. de 2010

eu tenho medo do mesmo

Descobri que é preciso mudar sempre. O mesmo é uma chatice - sim, eu tenho medo do mesmo. É preciso ter planos de curto e longo prazo. É preciso vislumbrar no horizonte algo diferente, alguma coisa que mexa com os alicerces da vida, sejam eles firmes ou molengas. O igual não tem graça. A mudança tem. É ela que dá o frio na barriga, o arrepio na espinha. E bom é viver assim, com aquele receio do que virá, com aquela sensação de "será que vai dar certo", com o não saber, o não conhecer, com o pisar em território desconhecido. Não é a mesma coisa que ser inconsequente e viver como se não houvesse amanhã. Ao contrário: me refiro a saber o que se quer, ou pelo menos desconfiar, e ir em busca, correr atrás, e fazer a transformação. Talvez seja um engano, mas como saber sem tentar? Sim, sim, um clichê e tanto. Imenso. Só vamos saber se fizermos, se tentarmos - ouvimos isso desde sempre. De tão batido, perdeu o sentido. E acabamos não fazendo nada, mesmo. Ou fazendo o mínimo. Desistimos por achar que não somos capazes, ou que é uma grande bobagem, um sonho que passou, que não temos mais idade pra isso, ou travamos diante do que os outros podem pensar... Assim o suposto clichê fica restrito às telas do cinema, às páginas dos livros, que parecem nos dizer algo, nos puxar ou empurrar, nos alertar... Muitas vezes, não passa disso e vira frustração.

Fazer o que se tem vontade, dentro ou além de nossas possibilidades, impor aos outros os nossos desejos e não deixar que nos impeçam ou nos dissuadam, e não permitir que a falta de mudança nos torne inertes e acomodados. Eu tenho medo do mesmo, e quero que ele vá para bem longe daqui. Para que meu amanhã não seja igual a hoje nem a ontem. Depende de mim. Eis minha mensagem de fim de ano. Que venha 2011.

12 de set. de 2010

insignificante, tudo

e eu me preocupando com a fatura do cartão de crédito no dia quinze e com aquela roupa que vi na vitrine mas que é muito cara e nem tenho onde usar e que filme vou tirar na locadora nesse final de semana chuvoso e será que vai fazer sol essa semana porque afinal a primavera vem vindo e daqui a menos de um mês vou ao Rio de Janeiro mas se o tempo não for bom não vou poder fazer as coisas que planejei então eu rezo para que faça calor e sol e essas coisas que deixam o Rio mais bonito do que já é porque o Rio é bonito até em dia de terremoto só que não tem terremoto no Rio nem no Brasil pelo menos é o que dizem mas na verdade parece que teve uns tremores outro dia não sei onde mas eu não senti nada aqui em Porto Alegre essa cidade que agora está tomada por cavaletes com propaganda de políticos que querem se eleger e principalmente se reeleger porque eles não sabem fazer outra coisa na vida é o que eu acho detesto eleição pra deputado porque são sempre as mesmas caras mas afinal o que importa nada importa é tudo uma grande bobagem como eu aqui agora fazendo backup dos arquivos do computador porque se der pau no computador eu vou ter uma cópia dos meus arquivos eu fico achando que não posso viver sem eles que se eu perder meus arquivos vai ser a mesma coisa que perder um braço ou uma perna mas eu sei que se eu perder meus arquivos eu vou continuar vivendo e tudo vai ser igual como sempre foi porque ninguém morre só porque perdeu alguma coisa material mesmo que seja virtual como são os arquivos de computador mas afinal só vemos que nada dessa merda toda importa quando perdemos alguém importante na nossa vida principalmente quando é a mais importante de todas e de repente essa pessoa não está mais aqui para nos confortar nem sorrir nem perguntar como foi nosso dia não deve existir nada nada nada mais dolorido que isso e é por isso que hoje eu acho que nada mais importa e que tudo é tão pequeno mas tão pequeno que eu fico me sentindo um grãozinho de areia insignificante

para Paulinha

19 de jul. de 2010

suavizando a existência (ou sobre aceitar a própria mutabilidade)

Começou com o sutiã. Tempos atrás eu só usava sutiã de bojo com ferrinho e enchimento, pra levantar minha autoestima e me iludir um pouquinho. Hoje esse tipo de sutiã só sai da gaveta em momentos que me exijam uma produção mais elaborada. É que, de repente, eles me fizeram sentir presa, sufocada, como deviam se sentir as mulheres de antigamente com seus espartilhos apertadíssimos. Meus sutiãs atuais não ficam me avisando o tempo todo que estão ali. Troquei o efeito peitão pelo conforto. Pela leveza.

Tempos atrás eu jamais sairia na rua em horário comercial usando All Star. Eu nem tinha All Star. Só saía de casa me equilibrando em saltos altíssimos e bicos finíssimos. Tênis, só no domingo – e olhe lá – e na hora da ginástica. Sapato baixo? Rasteira? Eu nem sabia o que era isso. Hoje, eles já são quase maioria no meu armário e reinam absolutos em meus pés.

Tempos atrás eu usava uns batons escuros, vermelhos, marrons. Hoje, só cor de boca ou rosinha, no máximo um dourado. Tempos atrás eu usava terninho. Hoje, jeans e camiseta. Tempos atrás eu tinha certeza do que queria fazer na vida. Hoje, abriu-se um leque de possibilidades na minha frente – porque eu quis abri-lo, leques não se abrem sozinhos – e eu estou tateando, provando um pouquinho, sonhando outro tanto, descobrindo o que quero, morrendo de medo, mas indo, vagarzinho. Porque o que eu queria tempos atrás parece que já não me serve mais.

Tempos atrás eu circulava muito segura de mim em eventos de networking, trocava cartões às centenas, achava assunto para falar com pessoas que não tinham nada em comum comigo. Esbarrei em muita gente boa, gente que somou, multiplicou. Mas também em gente pedante, mesquinha, vazia. Conheci perdedores, desesperados, oportunistas. Conheci gente bem-sucedida por mérito próprio, conheci filhinhos de papai brincando de ter empresa, conheci pessoas mal e bem intencionadas. Ingênuos? Nenhum. Sonhadores? Uns tantos. Talentosos, promissores? Alguns. Inteligentes? Muitos. Limitados? Arram.

Eu era um pouco disso tudo aí, eu era um deles. Ou melhor, queria ser, queria parecer. Não podia mesmo durar mais do que durou, ninguém consegue ser o que não é por muito tempo (é mais fácil saber o que não somos do que o que somos!). Até que não fui mal, não. Fiz tudo direitinho. Um pouco por vaidade, mas, sobretudo, para provar a mim mesma que podia. Que conseguia, que tinha competência, que tinha colhões. E tive, afinal. Encarei. Fiz quase tudo o que me propus a fazer, cometi erros e acertos. Essas coisas que só acontecem com quem faz. Valeu, mas passou. É passado, a hora agora é outra.

Isso é coisa de ser humano. Essa incoerência, essa mutabilidade. Somos incrivelmente incoerentes e irremediavelmente imperfeitos, por mais que tentemos mostrar o contrário, ser o contrário. Eu, dessa luta, já desisti. Porque ela é infantil e inglória. Não paga a pena. Minha luta é justamente aceitar – e como é difícil! – minha falibilidade, meus enganos, meus lapsos, minhas incertezas, minhas limitações, minhas volubilidades. Minha luta é encarar os desejos de mudança e não fazer de conta que eles não existem. É ser o que quero ser, que não é o que eu queria ser antes, mas agora é, e amanhã pode ser outra coisa. Por mais inconcebível e contraditório que pareça.

Começou com o sutiã. Culminará em algo que ainda não sei o que é, mas que deixo ser.

19 de abr. de 2010

os pseudorreligiosos

Pergunte aos seus amigos, colegas e conhecidos qual é a religião deles. Salvo um ou outro, a maioria dirá: sou católico, mas não-praticante. Ou então eles darão aquela resposta pronta de revista de celebridades: "Não sou religioso, mas tenho espiritualidade. Acredito em uma força superior que olha por nós..."

Será que é assim tão difícil dizer simplesmente que não se está nem aí para religião? Em nosso país, parece vergonhoso ou imoral não ter uma religião, principalmente não ser católico. Você não pode ser ateu ou agnóstico, mas tudo bem se não frequentar a igreja. Você comunga a cada dez anos e fecha os olhos para rezar o Pai-Nosso quando almoça na casa daquele tio meio crente, e tudo bem se vive a dizer heresias e a proferir o nome de Deus em vão. Você faz questão absoluta de se casar na igreja e de batizar seu filho, e esses eventos estarão entre a meia dúzia de vezes em que você ficará frente a frente com um padre na sua vida. E depois ainda irá praguejar contra esses mercenários que ficam cobrando o dízimo e obrigando você a ir à missa de preparação para a primeira comunhão do seu filho.

Mas você faz tudo isso mesmo assim. Porque é como manda o figurino. Você não quer ir para o inferno, afinal de contas. Deus perdoa bem mais fácil os pecadores devidamente sacramentados. Ele certamente perdoará você, que é um honesto pai de família, só quer o bem do próximo (com exceção daquele seu vizinho chato) e é batizado, crismado e casado com a benção do sacerdote da paróquia mais próxima.

O Brasil é um país católico, dizem. Se houvesse estatísticas reais (talvez existam, não sei), elas provavelmente mostrariam que essa maioria católica está fortemente baseada nesses pseudorreligiosos. É engraçado, até. Mesmo diante de uma igreja tão desacreditada, cuja história, muitas vezes hedionda, aponta a culpa ou responsabilidade por tantas guerras e povos dizimados, mesmo com as incontestáveis evidências de que o Vaticano usou, ao longo dos séculos, todo o seu poder em benefício de seus próprios interesses escusos, mesmo com a incrível multiplicação de padres pedófilos pelo mundo, mesmo assim, ao menos no Brasil, as pessoas ainda fazem questão de ser - ou de parecer - católicas. Como se desse título dependesse o seu lugar no reino dos céus.

***

Esta crônica foi escrita em sala de aula, no dia 12/04/2010, para a disciplina Escrita Criativa da Faculdade de Letras da PUCRS, ministrada pelo professor Charles Kiefer. O tema proposto era religiosidade.

Valia 2,0. Tirei 1,9. Humpf.

A propósito, de certa forma o texto é uma crítica a mim mesma, católica não-praticante que só reza quando o avião decola, nascida em uma família extremamente católica e com direito a mãe ex-freira, pasme. Ainda assim, na adolescência me desliguei desses assuntos, não me crismei e nem me casei na igreja. Mas, com certeza absoluta, batizarei o filho que um dia terei, e provavelmente o matricularei na catequese. Depois, acho que deixarei que ele cresça e se entenda por gente, para que então, quem sabe, escolha uma religião para si. É, acho que é por aí.

5 de abr. de 2010

não me conta


Acho incrível a facilidade que algumas pessoas têm de contar para quase estranhos suas coisas mais íntimas. Sabe aquela clássica frase "não me conta"? Quando acontece comigo, é isso o que eu realmente gostaria que a pessoa fizesse. Da minha boca sai "não me conta", mas à minha cabeça só vem "não me conta, eu não quero saber, eu não te conheço, não me conta!"

O que faz uma criatura falar a uma pessoa que conheceu anteontem e com quem não conversa mais do que trivialidades que está sendo traída pelo marido? Ou que está atolada em dívidas? Que está com infecção urinária? Que o filho tem problemas com drogas? É carência? Falta de assunto? Uma maneira de chamar a atenção? Por que um quase desconhecido se sente tão à vontade na minha presença a ponto de me transformar em ouvinte e conselheira?

Ninguém é obrigado a se interessar pelos assuntos alheios. Quem nunca se viu no desconforto de ter que fingir interesse, devolvendo interjeições, caras e bocas, mas se sentindo incapaz de dizer qualquer coisa que não soe fora de lugar? Ou então fazendo de conta que escuta enquanto, na verdade, a cabeça está focada em seus próprios problemas (ou em como não queria estar ouvindo aquela história)?

Eu falo das minhas coisas mais pessoais a bem pouca gente. Não defendo o não falar, o guardar para si, apenas não consigo me abrir a quem não me conhece pelo menos um pouco. Sempre que tentei fazer diferente, me senti meio idiota, como se estivesse jogando fora palavras sem significado. Prefiro ter certeza de que meu interlocutor tem interesse no que eu digo. Que me entende, que nutre simpatia e empatia por mim. É raro encontrar isso em um estranho.

Para ser sincera, meu sentimento em relação a essas pessoas tão abertas é ambíguo: sinto inveja e até certa admiração, porque não tenho essa habilidade. Mas sinto também um pouco de pena, porque acho que essa ausência de critério sobre “o que falar para quem” pode ser um sinal de desespero, um pedido de socorro. Mas também pode ser a mais pura e simples falta de noção.

Pode parecer incoerente eu escrever em um blog público sobre esse assunto, justamente quando me confesso tão reservada em relação a assuntos mais íntimos. É que escrever é um bom e necessário exercício para quem é assim como eu. Não pretendo relevar segredos recônditos através dos meus textos – vou continuar reservando-os aos amigos mais próximos –, mas aos poucos vou perdendo o receio de expor opiniões e sentimentos. Já é uma evolução. Para uns, podem ser apenas palavras à toa. Para outros, podem significar alguma coisa, mesmo tendo sido escritas por uma estranha.

26 de mar. de 2010

2 de mar. de 2010

bons e maus palavrões


O Fredo não gosta que eu fale palavrão. Ele fica chateado, por exemplo, quando a gente discute por bobagem e eu meto um palavrão no meio. Tipo, ah, vai te foder. Ele fica horrorizado, tadinho. Não sei como ele ainda não se acostumou, porque sempre fui meio desbocada.

Mas tem isso, né. Tem gente que não gosta de palavrão. Pessoas que têm os ouvidos sensíveis e acham que dá pra dizer o que se quer sem lançar mão deles. O Fredo mesmo, só fala em situações extremas, como pra xingar alguém no trânsito. "Vai tomar no teu cu" é a expressão preferida nessas ocasiões. E mesmo quando está bem brabo comigo, ele nunca me manda pra lugar nenhum. É um gentleman.

Só que eu acho que o palavrão tem um papel importantíssimo na nossa linguagem. Não adianta, tem coisas que a gente quer falar que só um palavrão consegue materializar. Não dá pra usar outras palavras quando a intenção é mandar alguém "se foder" ou "tomar no cu". Eufemismos como "vai pro inferno" ou "vai te catar" não têm o mesmo impacto.

E tem outra: hoje em dia a gente quase nunca fala palavrão pra insultar alguém. Na maioria das vezes ele serve pra enfatizar alguma coisa. O palavrão perdeu a conotação ofensiva no uso cotidiano. A gente diz que uma coisa é “muito afudê” (ou "a foder", sei lá como se escreve isso) quando achou muito bom, tri legal. Dizer que algo é "foda pra caralho" também é um super elogio. Chamar um amigo de "filho da puta" (ou "fiá da puta") ou a melhor amiga de "puta" não vai arruinar a amizade.

O significado literal dos palavrões, aliás, pode ser objeto de uma análise muito interessante. Por exemplo, "filho da puta" nunca, nunca quer dizer que a mãe do interlocutor trabalha na zona do meretrício. "Vai te foder" nunca significa que eu queira que o outro vá copular. Dizer que alguma coisa "é foda" não quer dizer que ela seja uma relação sexual. "Vai tomar no cu" também não significa que... ahn, você entendeu.

Eu vejo gente muito educada falando palavrão. Digo educada em termos de formação acadêmica mesmo. E pessoas mais velhas. Empresários. Professores. Médicos, advogados. TODOS falam palavrão. "Escrevi uma petição que ficou do caralho". "Hoje o plantão foi foda". "Mas que baita filho da puta, tirou 10 na prova". Sempre com a melhor das intenções.

Eu prefiro palavrões assim, bonzinhos, embora use as duas modalidades com certa frequência. É que a questão não é o mau palavrão em si, mas sim que, se você precisou dele, é porque estava em apuros, meteu-se em alguma situação complicada. E aí o palavrão é o menor dos problemas.

Seja como for, tem horas que só um palavrão consegue exprimir nossas mais profundas emoções - boas ou más.
(que do caralho essa frase)

10 de fev. de 2010

uma barata a menos no mundo


Tem uma barata no banheiro do escritório. No banheiro que usamos como uma espécie de copa-cozinha-área de serviço. Nesse exato momento ela está ali, fuçando a louça da pia.

A culpa é minha, quem manda querer ser elegante comendo banana? É que eu tenho a mania de comer banana com garfo, picada em rodelas numa tigela de vidro. O problema é que a tigela é prontamente depositada sobre a pia, ainda cheia de resíduos da fruta. Só penso em lavá-la no final do dia, ou, pior, na manhã seguinte.

É, eu dei muito mole pra essa barata. Lá está ela. Lambendo os restos da minha banana.

Elas até que são raras por aqui, as baratas. Em quase quatro anos, essa deve ser a terceira que aparece. Também, com o calor que tem feito, elas estão se proliferando como nunca. Submergem de todos os buracos da cidade, escalam paredes, canos, saídas de ar. Sei lá como essa veio parar aqui. Barata não tem medo de altura, nem de escuro. Nem de cheiro ruim.

E agora, o que eu faço? Grito? Hoje em dia eu não tenho mais o pânico de antigamente, não berro, não subo na cadeira nem saio correndo. Já fiz muito isso, mas não mais. Ora, sou adulta. Sei que é ela quem deve estar morrendo de medo de mim. Sou muito maior do que ela. Posso matá-la em um décimo de segundo. Ela deve ter conhecido milhares que morreram assim, assassinadas por alguém como eu.

O problema é o nojo. De aranha eu tenho medo, porque tem veneno, e aquelas perninhas, e... Mas pelo menos aranha não se cria em esgoto, não curte um cocô. Que eu saiba. Até lagartixa eu aprendi a respeitar. Me convenceram que ela se alimenta de insetos, então antes uma lagartixa do que um monte de bichinhos com asas em volta dos meus lustres. E elas também não andam sobre excrementos, até onde eu sei.

Mas barata não. Essas são da pior espécie possível. Feias, imprestáveis. E não me venha com aquele papo de equilíbrio ecológico. Eu duvido - DUVIDEODÓ - que a natureza ia sentir falta das baratas. Bem capaz.

Voltando à barata do banheiro. Se eu tentar matá-la, ela vai fugir, e eu vou ter que correr atrás dela. Coisa desagradável. Além de arriscada! Posso tropeçar, cair, quebrar alguma coisa. E com certeza vou gritar. Muito. Aí os vizinhos podem estranhar, vão bater aqui, perguntar se está tudo bem. Melhor não. (ok, eu acabei de dizer que os gritos eram coisa do passado, mas se houver perseguição não tem jeito, vai ter sonoplastia).

E se eu resolver realmente acabar com a raça dela, não posso esquecer que estou usando uma rasteirinha. Como vou dar a necessária chinelada? Nem é nova a sandália, mas é uma das que eu mais gosto. Estou no trabalho, não costumo trabalhar de havaianas.

E mesmo se eu tivesse um par de chinelos aqui, só de pensar na chinelada me vem à cabeça aquele "creck" inevitável, o barulho da morte da barata, a casquinha se quebrando, a gosma se espalhando, e grudando na sola da minha rasteirinha!

TEM que haver outra maneira.

Claro.

Marido.

Nessas horas, e em muitas outras, eu sou a mulher mais mulherzinha que existe. Estou sozinha no escritório, já passa das dezenove, o Fredo está vindo me buscar. Vou convidar para dar uma subidinha. E está tudo resolvido.

Pá!

Meu herói. Uma barata a menos no mundo.

20 de jan. de 2010

hóspedes indesejáveis


Todo verão eu recebia uma visita.
Elas vinham sem avisar, mas eu sempre sabia que viriam. Que chegariam junto com o sol e o calor da estação.
Ficavam por ali aqueles meses. Não davam trabalho. Os amigos comentavam: ó, que bonitinhas! Tão charmosinhas! E eu dizia: fofas, né? Mas logo, logo elas vão embora.
E iam mesmo. Nem davam tchau.
Mas no último verão foi diferente. Elas chegaram menos sorrateiras do que de costume. Estavam maiores, mais espaçosas. Eu sentia a presença delas. Antes não, eu só lembrava quando os outros falavam. Agora elas estavam ali, bem embaixo (e em cima, e em volta) do meu nariz. E davam sinais (!) de que não iriam embora tão cedo.
Veio o inverno e elas continuaram inertes. De visitantes sazonais, transformaram-se em hóspedes indesejáveis. Sabe aqueles "amigos" que chegam na sua casa dizendo que é só por uns dias, e de repente estão comendo a sua comida e deixando a louça suja na pia? É como eu me sentia. A briga ia ser feia.
Busquei ajuda de um especialista. Depois de uma rápida análise, ele explicou o que, intuitivamente, eu já sabia. Elas não eram mais as inofensivas visitantes de verão. Sem saber dizer se foram promovidas ou rebaixadas de cargo, diagnosticou:
- Não são mais sardinhas. São melasmas.
Melasmas!
Então as inocentes pintas marrons que davam um charme extra à minha cara de verão tinham se transformado em melasmas!
Prognóstico: se eu não me cuidar, elas vão se multiplicar feito coelhos e crescer rápido como leitões. Nunca mais, a partir de agora e até o último dia da minha vida, vou poder sair na rua com filtro solar menor que 60. Na praia ou piscina, chapéu com aba de sete centímetros no mínimo.
E isso só para elas não acharem que podem se esparramar à vontade. É preciso começar já o processo de despejo. Sim, colocá-las na rua da amargura, sem dó nem piedade. Não é o que se faz com hóspede abusado? As danadinhas despertaram minha ira. Agora vão ver só uma coisa. Vou transformar o hotel cinco estrelas no lugar mais inóspito para se viver.
Está aberta a temporada de guerra às melasmas.

13 de jan. de 2010

conversa de mulher


Conversa entre amigas em um restaurante japonês. Todas com mais de 30, casadas ou comprometidas, sem filhos. Não é um encontro frequente - duas delas estão de passagem pela cidade.

O papo começa com o assunto relacionamento. Óbvio. Uma delas está meio mal-humorada porque brigou com o namorado. O motivo? Diferenças. Que dúvida. Sempre difíceis de aceitar.

A conversa continua. Racismo. Uma delas diz que não é racista, mas que não ficaria com um negro, não sente atração. Nem com japonês, não acha bonito. As outras defendem, dizem que não tem nada disso não, vai que gosta, se apaixona, e aí? Preto, amarelo, vermelho, as convicções vão todas por água abaixo se pintar o amor. Melhor mudar de assunto.

O sushi está ótimo, as sakerinhas de morango também. Restaurante lotado. Na mesa ao lado, uma espécie de convenção de promoters: todas tão iguais, montadíssimas, magras, altas, louras e bronzeadas! Preconceito com as meninas? Sei lá, mas que deu vontade de perguntar qual era o produto que elas estavam distribuindo na "blitz", ah, isso deu.

Em papo de mulher, nunca falta um veneninho.

E nem dicas de beleza. O conversê segue: uma quer saber, afinal, qual o segredo das belas madeixas da outra. Cremes, tratamentos, cabeleireiros, ampolas, tesouras, lua nova... só faltou calendário pilomax.

O que ensejou outro assunto: Twitter. Aquele foi o dia da tag #twittealgomuitoantigo. Calendário pilomax, claro. Três twittam frequentemente, uma não. Queria entender como é. E putz, como é difícil explicar o Twitter. Meia hora no mínimo.

#twittealgomuitoantigo continuou rendendo boas risadas. Croco. Embaixada de Marte. Bunker. Santa Mônica. Pichulym. Kenwood. Kras. Company. T5. Tênis com linguão. Calça semibag.

Ombreiras.

E a moda dos anos 80, era brega ou não era?

E como saímos disso para o sucesso dos empreendimentos do Grupo Zaffari? E para o bairrismo do povo gaúcho? E para o domínio da China na economia mundial?

Até onde pode ir uma conversa de mulher.

Muitas e boas e altas risadas depois, hora de ir embora. Pagamos a conta, pedimos nossos carros aos manobristas e aproveitamos a espera para tirar fotos. Momento devidamente eternizado e, em breve, publicado internet afora.

Queria saber sobre o que conversam mulheres adultas, bem-resolvidas e desacompanhadas em uma mesa de bar? Taí uma amostra. Nunca falta fofoca, sexo, dieta, trabalho, casamento. Também pode pintar dinheiro, política, economia. Viagens, compras, liquidação. Drogas. Moda. Homossexualismo. Culinária. Pornografia. Cinema.
Tudo regado a muito palavrão e gargalhada.

Futebol? Passo.

29 de mar. de 2009

baile da cidade

Ontem fui ao Baile da Cidade, a festa que acontece todo ano, há 20 anos, na Redenção, para comemorar o aniversário de Porto Alegre. Moro na capital há quase 13 anos e nunca tinha ido ao tal baile. Não sei por quê. O evento é bem legal, considerando o que entendo ser sua proposta: reunir pessoas de todas as idades e classes e oferecer a elas entretenimento gratuito em um espaço público.

Os segredos pra curtir o evento são: não se importar em beber cerveja não muito gelada, direto da lata e tirada daqueles isopores bem sujos cheios de gelo derretido; relaxar ao constatar que vc só gosta de uma a cada dez músicas que tocam, e olhe lá; aguentar na boa os bebuns dançando funk perto da sua mesa, normalmente trajando camisetas do Internacional; esquecer que quem promove o evento é a prefeitura de Porto Alegre, que deixa tanto a desejar em outras áreas (mas que, pelo menos, não economizou no policiamento).

Acho que o maior segredo é estar de bom humor, e isso eu estava ontem à noite. Dancei até as 3 horas da manhã na companhia da Dani, do Fredo, da mãe da Dani e de uma galera que eu nem conhecia, mas que conhecia meus conhecidos. Boa parceria é fundamental também.

Apesar da festinha divertida, venho pensando muito sobre Porto Alegre ultimamente. Não é mais a mesma cidade de 1996, quando vim de mala e cuia saída de uma provinciana Guaíba ali do outro lado do rio. A cidade mudou, eu mudei. Algumas coisas das quais me orgulhava já não existem mais. Porto Alegre me parece apenas mais uma grande cidade brasileira afundada em problemas.

Acho que eu mudei mais que Porto Alegre.

25 de mar. de 2009

Aaargh, chega!!


Louca pra escrever sobre muitas coisas, mas o meu censor interno me impede. Preciso me libertar. Coisas incríveis aconteceram no último final de semana. Minha vida mudou. Eu mudei. Assim, de sexta pra segunda. De um dia pro outro. Da água pro vinho. Chega. Escreverei sobre futilidades até conseguir encarar tudo isso de frente. Meu próximo post será sobre moda. Maquiagem. Sapatos. Batons (a Eti, minha mais fiel leitora, que sugeriu). Qualquer coisa que seja leve, sem impacto, sem traumas.

Mas ó, acho que tudo veio pra melhorar. Não há tragédias. Só mudanças. Um pouco mais de clareza. Uma pitada de certeza. Uma porção de descobertas. Compreensão. Aaargh, chega!!

16 de mar. de 2009

alguém lê esse blog além de mim. isso não é uma pergunta

Faz um tempo que coloquei o código do Google Analytics no blog pra ver se afinal de contas alguém lê isso aqui além de mim. E até que a surpresa foi boa, embora a audiência ainda não seja digna de qualquer tentativa de monetização.

Devo confessar que ter um blog é meio que estar numa prisão. Ou, no mínimo, com uma obrigação com sei lá eu quem ou o quê. No início era comigo mesma, mas a partir do momento em que tem gente entrando aqui, seja pra dizer "mas que merda é essa?", seja pra descobrir que não era bem o que estava procurando, seja por pura curiosidade de saber o que essa tal Fernanda Vier escreve num blog... não importa, entrou, tem que ter alguma coisa pra ler, e não pode ser de um mês atrás.

Não tenho compromisso algum com isso aqui. Escrevo o que dá na telha (ou nem tanto, preciso flexibilizar meu censor interno), na hora que consigo, sobre assuntos que normalmente só dizem respeito a mim mesma. E o que me motiva a não parar são basicamente duas coisas: praticar a escrita e deixar algo para a posteridade além de fotos. O engraçado é que eu pratico a escrita diariamente, já que trabalho em uma empresa de conteúdo. Mas é que aqui eu só escrevo sobre o que eu penso e quero. Essa é a diferença.

Quanto a deixar pra posteridade, eu que digo agora, que merda é essa? Sei lá, mas alguém vai ler isso daqui 40 anos além de mim mesma. Isso se os servidores do Google aguentarem até lá.

20 de jan. de 2009

decisão drástica

Tomei uma decisão drástica: não vou assitir ao BBB9 e nem à novela Caminho das Índias. Vou ocupar esse tempo com outras coisas. Vou ficar na internet, assistir a outros programas, descobrir outros canais, dormir, ler revistas e livros, bula de remédio, o que for. Mas não vou ver essas bostas aí não.

Não pense que é fácil pra mim. Tirando as duas primeiras edições, que por algum motivo não acompanhei direito, eu assisti a todos os BBBs. Alguns eu até curti, me diverti, outros eu odiei, mas assisti igual. Com a novela das 9 da Globo, a mesma coisa. Não sou dessas que ficam falando dos rumos da trama com as pessoas no elevador, mas, de um jeito ou de outro, acabo acompanhando. Mesmo quando é ruim.

Então isso não significa que eu decretei que nunca mais vou ver novela ou BBB. O problema não é o gênero em si, o problema é Caminho das Índias e o BBB9.

Lembro muito bem das duas últimas novelas da Gloria Perez. O Clone e América. Não sei dizer qual foi pior. Duas bombas, dessas que a gente vê e se contorce no sofá de tão ruim. Por isso resolvi não dar mais uma chance pra ela. Aguardemos o próximo folhetim.

E quanto ao BBB, bom, esse talvez eu deixe mesmo de assistir. Se eu passo a vida tentando ficar longe de gente vazia, por que vou querer saber como vive essa espécie em cativeiro? Não tem como sair alguma coisa que preste dali.

Livre! Finalmente, livre!

Ah, mas se eu mudar de ideia, eu aviso.

O Marcio Garcia até que é gatinho, mas não vai ter minha audiência não. Desculpa aí, Marcinho...

8 de jan. de 2009

acontecendo tudo, acontecendo nada

Estou em uma fase em que, apesar de muita coisa estar acontecendo, me sinto serena e tranqüila. Meu ano-novo foi a síntese disso: um feriado descomprometido, a 600 quilômetros de casa (e do litoral), longe do tumulto que marcou esse final de ano chuvoso e, para muita gente, estressante. Um feriadinho delicioso na companhia de bons amigos, com muita comida, muita bebida, muitas horas de sono e total despreocupação. Agradeço o convite dos queridos Romualdo e Ciça e a hospitalidade dos pais dele, Rosa e Jairo, e da irmã, a pequena Fabi. Não poderia ter sido melhor.

E o que mais? Além da preparação para as férias - daqui a apenas duas semanas -, muito trabalho, muita malhação, uma dietinha básica pré-férias (isso tem hífen ou não???) pra não fazer (muito) feio dentro do biquíni... e também a corrida pelo sonhado apartamento dos meus pais, que mais do que nunca estão recorrendo à filha caçula e ao genro para resolver os chatíssimos problemas causados pela aquisição de um imóvel.

E no trabalho as coisas se ajeitam e só melhoram, novidades surgem a cada momento, os clientes sempre bem felizes, as relações cada vez mais fortes, os problemas sendo resolvidos sem maiores percalços...

E em casa tem até um sofá novo, lindo, confortabilíssimo. Agora é ainda melhor ficar sentada na sala, lendo um livro ou vendo TV... coisa bem boa... perfeito para assistir à minissérie Maysa, que a Globo exibe desde segunda-feira, e que me arrepia e faz lembrar da recém-lida biografia dessa mulher incrível (emprestada pela Mimi, como não poderia deixar de ser), de quem virei fã.

Enfim, tuuudo na mais santa paz.

Hummm...

Aaaaaaaaaaaaaaargh, isso já tá me irritando! Não estou acostumada. Sempre tem alguma coisa torta. Nem tudo pode estar tão bem. Nããão, não é possível. Vamos ao que tem me irritado ultimamente:

- o redemoinho que tenho no cabelo, que às vezes me deixa meio careca.
- a brancura do corpitcho (mas que, afinal, faz juz ao Vier do meu nome)
- as celulites que povoam este corpitcho.
- a manicure que nunca tem hora pra me atender.
- a nova novela das 9 da Globo, que ainda nem começou mas que eu já sei que vai ser muito ruim.
- o Big Brother 9, que além de empurrar a Maysa para muito mais tarde, vai ter 18 pessoas certamente desinteressantes, mais não sei quantas numa bolha dentro de um shopping para o povo escolher quem entra na casa... um festival de barbaridades.
- as asinhas de cupim que insistem em aparecer aqui em casa, apesar de termos erradicado a praga de todas as madeiras.
- o Fredo reclamando que eu dirijo muito rápido na estrada.
- o Fredo reclamando que eu não avisei sobre um controlador de velocidade.
- a Varig e a Gol mudando a toda hora os vôos das nossas férias.
- a conexão da Net que volta e meia não funciona.
- a série Desperate Housewives, que o canal Sony reprisa até enjoar e fica quase um ano sem passar uma nova temporada.
- a Bovespa, que caiu muito nos últimos meses, maldita crise. Aguardemos pela recuperação da Petrobrás.
- a...

Pode não parecer, mas fiz um baita esforço pra escrever essa lista tolíssima. De fato, as coisas que me preocupam atualmente são fúteis e irrelevantes. Está tudo tão bem. Deixemos assim, porque esses momentos são raros.

26 de out. de 2008

bodas de madeira

Ontem completamos, Fredo e eu, 5 anos de casados. O tempo passou rápido nisso também. Embora estejamos juntos há muito mais tempo – quase 12 anos –, foi no dia 25 de outubro de 2003 que assinamos o papel e nos tornamos marido e mulher. A gente nem precisava ter se casado, porque morávamos juntos e a lei certamente já consideraria nossa relação estável. Mas tinha um problema. Eu não conseguia deixar de chamá-lo de namorado. E isso era ridículo, pois àquela altura, namorados já não éramos há um bom tempo. Mas eu simplesmente não conseguia. Ele não me chamava de namorada, mas de mulher ou esposa também não, eu acho. Homem tem a vantagem de poder falar “minha guria”, era assim que ele falava para amigos ou colegas de trabalho que não me conheciam. Só que eu não podia chamá-lo de “meu guri” sem parecer que estava fazendo alusão à música de Chico Buarque. Ninguém chama namorado de “meu guri”, “meu homem”...

Nosso casamento foi super simples. Bonito, quase singelo. Escolhemos um espaço para festas na rua Dona Laura e ali tudo se deu. Não esbanjamos, só o essencial. Não teve igreja, mas teve uma benção dos meus pais, aproveitando o fato de eles serem católicos praticantes e minha mãe, uma ex-freira. Compareceram cerca de 80 pessoas, ou quase a totalidade de convidados. Os padrinhos foram nossos amigos mais queridos e próximos. As músicas foram selecionadas a dedo. Por meses nos dedicamos a vasculhar nossos CDs (em uma era pré-eMule) e a escolher o que o DJ do lugar - nada confiável - iria tocar. Isso deu um toque superpessoal à festa, muita gente percebeu que aquelas músicas não estavam tocando à toa. Na entrada dos padrinhos, a trilha foi In My Life, dos Beatles. Na entrada da noiva, Wave, na voz de João Gilberto. A valsa, nada ortodoxa, foi Te Solté la Rienda, na interpretação dos mexicanos do Maná. Na hora do brinde, foi a vez de Gracias a La Vida, cantada por Elis Regina. Arrepios...

Estávamos muito felizes. Reunir familiares e amigos para festejar nossa união deixou-nos extasiados. Acho que, se fosse casar hoje, faria muitas coisas de maneira diferente, principalmente a escolha dos fornecedores, pois nem tudo me agradou. Ou, provavelmente, nem casasse. Colocaria uma aliança na mão esquerda e pronto. Mas, aos 25 anos (a idade que eu tinha quando resolvemos casar; o casório foi 11 dias depois do meu aniversário de 26), não conseguia conviver com a idéia de nunca passar por esse rito de passagem, apesar de jamais ter sido o grande sonho da minha vida. Mas, naquele momento, achei que valeria a pena. Ainda bem que pensei assim.

Pena que não deu pra comemorar direito nossas bodas de madeira. Foi um final de semana chuvoso e eu ainda estou um tanto convalescente. Acho que ano que vem, em nossas "bodas de perfume", daremos uma festa. Quem sabe? De novo, é claro, com músicas escolhidas a dedo.

11 de out. de 2008

evidências físicas

Entre as mudanças que a entrada na quarta década de vida trazem (embora esteja longe dos 40, me dei conta de que já vivi três décadas inteirinhas), as mais contundentes são as evidências físicas. Afinal, é o corpo que envelhece. A cabeça é fácil manter jovem, tenho certeza de que terei uma mente jovem sempre. Mas são as infalíveis evidências físicas que me põem louca. Por mais que a indústria da cosmética e da estética invente técnicas milagrosas, tudo o que se fizer apenas protelará o que fatalmente virá. E já está vindo.

A facilidade que eu tinha de emagrecer já não é mais a mesma. A pele - sempre tão boa! - está diferente. Umas manchinhas começam a aparecer, ruguinhas também. As pálpebras já estão meio caídas (minha dermatologista disse que é uma predisposição genética e que botox resolve. Aff...). As gorduras localizadas se instalaram com usucapião. As articulações insistem em dar o ar da sua graça (antes eu nem lembrava que tinha joelhos!). Até mesmo o sono - eu, a dorminhoca-mor - mudou, as costas começam a doer depois de 10 horas na cama e acordar às 7 horas nem é tão difícil assim.

E o corpo? Ah, o corpitcho... esse que sempre foi meu grande trunfo, o responsável por minha auto-estima, um dos poucos aspectos físicos em que Deus (ou a genética?), caprichosamente, me favoreceu... tem prazo de validade e dá os primeiros sinais de que vai me deixar na mão. Tudo o que antes eu me orgulhava de não ter - ou de ter pouco - culote, celulite, flancos... tudo começa a aparecer por aqui.

Ginástica, dieta, creme hidratante, esfoliante, drenagem linfática... tudo paliativo. É como eu disse num post no dia 10 de abril: "Faça dieta o resto da vida se não quiser engordar. Caso contrário, você engordará. Faça ginástica o resto da vida para não despencar tudo. Caso contrário, tudo despencará. E conforme-se, pois, mesmo fazendo tudo isso, você pode até não engordar, mas um dia, tudo despencará." É bem assim.

Daí a gente chega num outro assunto: as intervenções cirúrgicas para fins estéticos. Nunca fui contra, e nem poderia, afinal, corrigi as orelhas de abano com apenas 14 anos. Me incomodavam, fui lá e mudei. Por que iria me conformar com uma brincadeira de mau gosto da genética? Minhas orelhas são naturais agora, antes é que eram erradas. O mesmo vale para outros tipos de correção. Com bom senso, sem exageros, na idade certa, acho totalmente válido.

É por isso que decidi adiar mais um pouquinho o inevitável. Enquanto for considerada jovem, quero parecer jovem, não apenas ser. Depois que eu não for mais jovem... sei lá, mais tarde eu vejo. Pra essas coisas a gente tem que ser meio imediatista. Se mal estou dando conta dos 31, que dirá do que vem depois.

8 de out. de 2008

de repente 31


Semana que vem é meu aniversário. 31. A cada ano que passa eu detesto mais essa data. Começou quando eu tinha uns 24, 25. Já naquela época eu sentia a pressão de estar chegando perto dos 30. Agora que estou mais perto deles do que nunca (ops! estou passando por eles!), constato que o tempo é inexorável, implacável e totalmente indiferente ao meu sofrimento. Um sofrer acanhado, é verdade. Nada que me faça chorar, me escabelar. Mas é um sofrimento que sempre me pega de jeito. Em algum momento do dia eu lembro que o tempo não pára. Que eu já não sou mais uma guria. Que sou indubitavelmente adulta, tão adulta que já tenho idade para ser mãe, comprar carro, financiar apartamento, aplicar botox.

Vivo um estranho paradoxo entre a menina e a mulher. Às vezes sou uma, às vezes outra. O fato é que não me agrada essa idéia de ser adulta, mulher, senhora, tia. Parece que, internamente, essa transição está acontecendo só agora, tardiamente, eu diria. É uma ambigüidade que me acompanha o tempo todo, está presente nas coisas que falo, penso e faço. E sinto.

Uma das razões é que eu não fiz muita coisa que normalmente se faz antes dos 30. Não cruzei o Atlântico, não fui garçonete num pub inglês, não morei sozinha, não fui a Porto Seguro (ufa!) ou a Bariloche com a turma do colégio, não tomei bala em rave. Por outro lado, sou nova para ter feito certas coisas que já fiz. Dos 20 aos 30 eu me formei, abri duas empresas, fiz uma pós, fui presidente de entidade empresarial, casei, parei de fumar... Alguns dirão que é típico da idade: nem tão jovem a ponto de não ter um passado, uma história, mas com muita vida pela frente. Nem 8 nem 80. 31.

Uma outra nuance desse negócio de passar dos 30 são as evidências físicas. Mas isso eu vou guardar pra falar num próximo post. Espero que esses momentos de reflexão me ajudem a enfrentar mais um aniversário!

16 de set. de 2008

cantar pra quê?

Essa semana estou me preparando para fazer algo muito legal. Minha professora de canto, Karine Cunha, e o marido dela, Marcos Bonilla, vão promover um sarau de canto e violão na Palavraria Livraria e Café, ali na Vasco da Gama. Vai ser uma espécie de despedida deles, que estão indo passar uns meses no Nordeste para fazer shows e mostrar o excelente trabalho que desenvolvem como músicos.

E eu, aspirante a reles mortal que canta, estou ensaiando (menos desesperadamente do que na época do casamento da Fê e do Ricardo, é verdade) umas músicas para apresentar aos convidados. Serão 3,3 músicas, isso porque serão três inteiras e 1/3 de outra, já que dividirei os vocais com outras duas alunas.

Estou ansiosa, mas até que nem tanto. Acho que sempre esperei por um momento desses, de tanto que gosto de cantar. Chega uma hora que cansa ficar cantando só no chuveiro. Ainda mais depois de quase dois anos de aulas. A evolução é visível, ou audível. É claro que continuo sendo uma reles mortal, mas uma reles mortal afinadinha.

O fato é que cantar - bem ou mal - me faz bem. Hoje, ouvir minha própria voz me faz bem. Antes eu tinha vergonha, não cantava alto, não sabia se podia, se conseguiria. Agora não, sei que posso fazer uma porção de coisas. Ainda tenho os diabinhos que me acompanham, que me impedem de, às vezes, alcançar as notas que eu sei que alcanço, ou de sustentar uma nota por mais tempo, ou de ter ar suficiente pra cantar uma frase até o fim... mas aos poucos estou superando isso.

Aí eu (e muita gente que sabe que eu faço - e pago! - aulas de canto) me pergunto: pra quê? Não, não pretendo virar cantora. Too late. Não sei se essa pergunta tem resposta. É como tentar explicar porque eu tenho esse blog. Quem o lê? Não faço muita idéia. De vez em quando alguém comenta alguma coisa. Mas a audiência é bem pequena. Mais ou menos como cantar: minha platéia mais freqüente é o Fredo, que não tem pra onde fugir, e a minha professora. Nessa sexta-feira, mais algumas pessoas vão poder conferir esse "talento" que eu tento desenvolver.

Continua sem resposta... Pode ser só "porque eu gosto"? Acho que sim, né? É como escrever o blog. Adoro escrever. Eu trabalho escrevendo, só que pros outros. Aqui, eu escrevo pra mim, é um exercício. Lidos ou não, esses textos retratam meus bons e maus momentos e registram coisas sobre mim, hoje e no futuro. E servem para melhorar meu português, meu vocabulário, minha escrita.

Cantar é um pouco assim. Hoje eu ouço música de outra forma, meu ouvido está muito mais seletivo. Estou musicalmente mais inteligente, não sou mais uma mera ouvinte. Me sinto mais próxima dos artistas que admiro, entendo-os melhor.

O próximo passo é aprender a tocar violão... mas pra quê? Ah, essa resposta é bem mais fácil: pra eu poder me acompanhar, ora! Pra não depender dos outros e poder cantar a qualquer hora, em qualquer lugar...

Humm, acho que arrumei mais uma atividade extra.