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11 de fev. de 2011

estatuto amigos do rosa

O Estatuto Amigos do Rosa foi escrito e enviado por minha querida e sempre criativa amiga Isadora Badi exatamente no dia 24 de fevereiro do ano 2000, poucos dias antes de nossa ida à Praia do Rosa para um inesquecível carnaval. Naquele ano, o feriado também caiu em março, como agora, 11 anos depois. Lembro que houve sol, chuva e, lógico, muita bebedeira, como deixa claro o estatuto. Que, aliás, foi cumprido a risca.

O legal é que se essa turma se reunisse novamente hoje, não seria muito diferente. Infelizmente esse encontro jamais se repetirá com a mesma configuração, pois muita coisa aconteceu nesses anos todos, pessoas espalhadas pelo mundo, alguns casais desfeitos, enfim... Mas fica a deliciosa lembrança, graças ao Fredo que, não sei como, resgatou esse e-mail das profundezas do Outlook.

ESTATUTO AMIGOS DO ROSA
O desrespeito à qualquer uma dessas regras básicas para o bem estar de todos os membros da comunidade implicará no afastamento imediato do verme que desobedecê-las.
1. Sempre que sujar, limpe.
2. Sempre que cair, levante.
3. Misturarás fermentados com destilados.
4. Ao devolver o que bebeu de volta à natureza, trate de respeitar o travesseiro ou o prato do colega.
5. Não desejarás a ceva do próximo.
6. Amarás o whisky como a ti mesmo.
7. Não invocarás o nome de Hugo em vão.
8. Não cometerá atos libidinosos ou nojentos em público, que possam vir a causar vergonha ou constrangimento nos outros componentes do grupo.
9. Não beberás suco, refrigerante (água, então, nem pensar) que possam comprometer sua (in)sanidade física.
10. Não estarás mais de 17min e 42seg.  sóbrio.
11. Não te lembrarás de quase nada ao final das atividades carnavalescas.
12. Manterás as ceva gelada e praticarás o exorcismo no infeliz que tomá-la quente.
13. Não te arrependerás dos teus atos, afinal, tudo na vida acontece po vontade de uma força superior.

SIM, eu prometo respeitar as diretrizes impostas pelo patrocinador do evento e concordo com a punição em caso de desobediencia:

(não lembro quem era o "patrocinador", acho que o e-mail tinha uma foto, mas isso se perdeu. será que alguém lembra???)

11 de nov. de 2010

sobre como os beatles entraram na minha vida (ou pretexto para falar do show do paul)

Primeiro ouvi na Ipanema FM que tinha dado no ClicRBS que os empresários de Paul McCartney estariam em negociações para trazê-lo a Porto Alegre, aproveitando a passagem já confirmada por Buenos Aires. Pensei: “Humpf, que esperança”, e fui me ocupar com qualquer outra coisa. Dias depois, a conversa parecia um pouco mais séria. Na Itapema FM, deu que os caras estavam na cidade para visitar os estádios e hotéis e verificar se a estrutura era boa o suficiente para a grandiosidade do artista – não estou sendo irônica. Aí eu disse: “Humm, quantos dias para eles darem o veredicto negativo?”.

Pois é, mordi a língua. Logo o clã Sirotsky se reuniria com os tais empresários para assinar o contrato. Até a data já estava definida: 7 de novembro. Pasmei: “Uau, Paul McCartney em Porto Alegre, unbelievable”. Mas o segundo pensamento foi: “Decerto ele vai tocar só músicas da carreira solo”. Mordi a língua novamente: do setlist que ele vinha apresentando na Up and Coming Tour mundo afora, metade era Beatles. Quando finalmente divulgaram os preços dos ingressos, que nem eram tão absurdos quanto eu tinha imaginado, e que a pré-venda seria para assinantes de jornais da RBS – eu tinha feito uma assinatura de Zero Hora duas semanas antes –, só aí eu tive certeza de que eu iria ao show do Paul McCartney.

Mas a ficha custou a cair. Durante os cerca de 30 dias entre a compra do ingresso e o show, não tive frio na barriga, não fiquei nervosa, permaneci praticamente imune à histeria coletiva que se instalou em Porto Alegre, em grande parte embalada pela mídia massiva e até excessiva da RBS sobre o assunto (acho que exageraram na dose, mas, tratando-se de Sir Paul, é perfeitamente compreensível e perdoável). O máximo que fiz foi ouvir o mais que pude um CD gravado com as músicas do provável setlist que havia sido divulgado (e que se confirmaria totalmente, inclusive a ordem foi a mesma ), já que pouco conheço a carreira solo do moço e detesto ficar boiando em shows.

Tudo já se disse sobre o show e imagino que quem não foi está de saco cheio dessa conversa. Eu estaria. Mas sim, foi mesmo tudo isso. 55 mil pessoas não poderiam ser cúmplices de uma mentira, não teríamos como combinar “vamos dizer pra todo mundo que foi ótimo só pra tripudiar”. Unanimidade é coisa rara e dizem até que é burra, mas parece que o show do Paul McCartney foi para o topo da lista de exceções da velha máxima. Porque foi bom pra caralho. Beirou a perfeição. Deixou todos boquiabertos, bateu fundo no coração e na alma de quem estava lá, fez lágrimas escorrerem, sentimentos aflorarem... e aí já escorreguei pra pieguice e dela acho que não saio nunca mais quando se tratar do show do Paul McCartney.

Cada um tem seus motivos paga gostar de Beatles, do Paul, do John e até mesmo do George e do Ringo, que sempre me parecem meio esquecidos. Cada um tem uma história pra contar. A minha é assim: meu pai é professor de inglês. Ele dava aula em escolas públicas de Guaíba, onde morávamos, para os antigos primeiro e segundo graus. Uma das marcas registradas dele eram as musiquinhas, principalmente nas turmas infantis. Tinha de tudo, de Little Indian a My Bonnie Lies Over The Ocean. E tinha Beatles. Especialmente Love Me Do e Hello Good Bye, com seus versos repetitivos e fáceis, mas às vezes também Hey Jude e Help, bem mais complexas, e até Yesterday, se não me falha a memória. Ele gravava fitas K7 (oi?) a partir dos álbuns duplos de vinil (oi?) de capas azul e vermelha, que eram coletâneas do que de melhor o grupo fez ao longo de toda a carreira – o vermelho era da fase iê iê iê, e o azul, da psicodélica, da mais rock n’ roll.

Fui aluna do meu pai na quinta e na sétima série, mas antes disso as musiquinhas que ele dava em aula e que frequentemente tocavam na minha casa chamaram minha atenção. Sempre gostei de cantar, e quando gostava de uma música, não sossegava enquanto não decorava a letra, fosse em português ou em inglês. Na época – década de oitenta, tá? –, para conseguir as letras era preciso comprar o disco para ter o encarte ou então gravar da rádio e tirar de ouvido, coisa que muito fiz. Mas com Beatles eu tinha aquele tesouro do meu pai, os álbuns duplos, e certo dia decidi desbravá-los. Eu não sabia nada sobre o fenômeno que eles haviam sido, conhecia apenas meia dúzia de músicas, mas por algum motivo eu desconfiei que ali tinha bem mais do que Love Me Do e Hello Good Bye. Não demorou para eu constatar que sim, tinha muito, muito mais. E como até hoje, quando gosto de um disco, de uma banda, de um cantor ou cantora, ouço até cansar, eu devo ter gasto algumas agulhas escutando aqueles discos no três em um.

Logo descobri que os encartes dos álbuns, que continham as letras das músicas, estavam se deteriorando com tanto uso. Foi assim que, por vários dias, talvez semanas, me entretive ouvindo os discos e restaurando cuidadosamente os encartes. Alguns pedaços das letras tinham se rasgado e eu completava no papel, escrevendo a mão o que tirava de ouvido. Desse jeito acabei decorando as músicas e até mesmo as melodias, as notas, os riffs de guitarra, as interjeições, todos os detalhes de quase todas as canções. Até hoje acho que isso contribuiu muitíssimo para o aprimoramento da minha pronúncia no inglês, que é bem boa, modéstia às favas.

E foi assim que os Beatles entraram na minha vida. Nada pomposo, uma história singela, até. Foi unicamente a música deles que me cativou, e não o fato de eles terem sido os maiores de todos os tempos ou coisa do tipo. Nunca fui beatlemaníaca, estou mais para admiradora, alguém que curte, que se identifica, se emociona, se arrepia e se diverte com eles. Os Beatles me fazem lembrar minha infância e a sorte que tive de ter aqueles benditos álbuns dentro de casa. Mais tarde eu pude comprar vários CDs e continuar curtindo os Beatles, agora sim sabendo melhor quem foram aqueles quatro garotos, a importância que tiveram para toda uma geração e que continuam tendo, vide a enorme quantidade de jovenzinhos e de velhinhos no show do último domingo.

Para mim, o fato de Paul McCartney estar vivo e super na ativa era uma coisa, confesso, meio distante, meio, sei lá, nunca tinha parado para pensar no assunto. Vez ou outra lia notícias sobre ele, mas não tinha muita noção do que significava um beatle ter sobrevivido ao tempo e aos próprios Beatles para construir uma carreira irretocável como foi a dele, sem nunca decair, e aos 68 anos ser capaz de fazer um show como o que eu vi no Beira-Rio. A sensação de estar no mesmo ambiente de Paul McCartney, mesmo a muitos metros de distância, foi estranha e impactante. Fui ao show da Madonna em São Paulo e saí de lá com uma lista enorme de reclamações, assisti ao Eric Clapton no Olímpico e foi uma das coisas mais monótonas que já presenciei, e até mesmo os dois shows do meu ídolo-mor, Chico Buarque, vão para a lona perto do que fez Paul, e tudo isso considerando as diferenças óbvias de estilo. Como seria bom se todos os artistas – e veja que poucos podem sequer ser comparados a Paul McCartney – tivessem o entusiasmo, a simpatia, o bom humor, o fôlego que ele teve, a preocupação com a perfeição e em proporcionar o melhor espetáculo possível, de honrar o amor do público e fazer valer cada centavo investido. É um exemplo para toda a classe artística, goste ou não de Beatles e de Paul McCartney. Não há como ignorar.

Vou parar por aqui, porque até eu já estou me achando uma chata. O que queria mesmo era contar a maneira despretensiosa que os Beatles entraram na minha vida, e acabei falando um monte sobre o show. Agora me resta guardar na memória esse momento que foi mágico e... tá, chega.

25 de ago. de 2010

em respeito à memória de renato russo

Ontem o Multishow fez o desfavor de "homenagear" o Legião Urbana colocando o Vitor e Léo (quem?) e a Claudia Leitte (ã?) cantando a música Pais e Filhos. Putaquemepariu. Foi um dos shows do Prêmio Multishow de Música Brasileira, que, aliás, já teve dias melhores. Mas enfim, que o Multishow abra espaço para o Luan Santana (hein?) e o Fiuk (o mundo se contentaria só com um Fábio Junior, nénão?), eu até entendo, agora fazer isso com o Renato Russo, avápá... vergonha alheia, vergonha, vergonha.
Pais e Filhos foi e talvez ainda seja o maior hino adolescente da história. Eu ouvia essa música na minha adolescência e ela falava diretamente comigo, era feita pra mim. Pra mim e pra todos os que tinham a minha idade no Brasil inteiro. O Legião e o Renato Russo tinham isso, falavam a língua do público. Fizeram coisas maravilhosas. Tem gente que acha depressivo. Eu acho autêntico. Visceral. Legião é rock, é poesia, é crítica social, é soco no estômago. Que falta faz tudo isso na música brasileira de hoje.
Agora mesmo resolvi ouvir o CD Legião Urbana V, aquele da capa branca com letras douradas. Tenho ele até hoje. Está escrito no encarte: 17/10/1992. Dezoito anos. Uau... Provavelmente ganhei de aniversário, não lembro. Mas lembro que o escutei infinitas vezes. Ainda sei as letras decor. Até mesmo a da faixa número 2, Metal Contra as Nuvens, que tem mais de 11 minutos de duração. Cantei ela inteirinha no show que fui no Gigantinho, em 1994. Na época tive a nítida sensação de ser a única pessoa que sabia cantar aquela música. Acho que poucos tinham paciência de ouvi-la. Eu tinha. Sabia até mesmo as canções instrumentais, acompanhava com a mente cada nota, cada acorde. Eu era assim na adolescência, ouvia um mesmo disco até furar. Mas não furou, tanto é que esse me acompanha há longos dezoito anos.
Esse disco, o Wikipedia acaba de me contar, reflete a crise econômica causada pelo plano Collor e a dependência química de Renato. Interessante saber disso agora. Porque na época eu não me dava conta. Mas me emocionava, mesmo não entendendo bem o que as letras significavam. Não são letras fáceis. Duas delas me chamaram particular atenção hoje: a música-para-suicídio Vento no Litoral e a meiga, alto astral, romântica e bem-humorada O Mundo Anda Tão Complicado. Uma contraposição perfeita. Me fizeram ir às lágrimas indagorinha.
Renato Russo morreu uns anos depois. Não lembro bem o que senti quando soube. Mas foi estranho porque menos de dois anos antes eu o tinha visto muito de perto, nesse show do Gigantinho. Um show histórico, aliás. Histórico pra banda e pra mim também. Fomos eu e o Sandro, meu amigo, meu parceiro de momentos inesquecíveis como esse que foi ver Legião Urbana em Porto Alegre. Algumas pessoas viram Cazuza, outras viram Elis Regina, outras viram Cássia Eller. Eu vi o Renato Russo. Ídolo.
Pois tudo isso para dizer que as músicas do Legião continuam tocando adolescentes e adultos até hoje, mas se o Multishow insistir em colocá-las na boca de artistas de quinta categoria (e eu acho que "artistas de quinta categoria" é até elogio para os charlatões em questão), vai contribuir para que o legado de uma das maiores bandas brasileiras de todos os tempos seja confundido com música de quinta também. Ora, faça-me o favor, Multishow!

19 de jul. de 2010

suavizando a existência (ou sobre aceitar a própria mutabilidade)

Começou com o sutiã. Tempos atrás eu só usava sutiã de bojo com ferrinho e enchimento, pra levantar minha autoestima e me iludir um pouquinho. Hoje esse tipo de sutiã só sai da gaveta em momentos que me exijam uma produção mais elaborada. É que, de repente, eles me fizeram sentir presa, sufocada, como deviam se sentir as mulheres de antigamente com seus espartilhos apertadíssimos. Meus sutiãs atuais não ficam me avisando o tempo todo que estão ali. Troquei o efeito peitão pelo conforto. Pela leveza.

Tempos atrás eu jamais sairia na rua em horário comercial usando All Star. Eu nem tinha All Star. Só saía de casa me equilibrando em saltos altíssimos e bicos finíssimos. Tênis, só no domingo – e olhe lá – e na hora da ginástica. Sapato baixo? Rasteira? Eu nem sabia o que era isso. Hoje, eles já são quase maioria no meu armário e reinam absolutos em meus pés.

Tempos atrás eu usava uns batons escuros, vermelhos, marrons. Hoje, só cor de boca ou rosinha, no máximo um dourado. Tempos atrás eu usava terninho. Hoje, jeans e camiseta. Tempos atrás eu tinha certeza do que queria fazer na vida. Hoje, abriu-se um leque de possibilidades na minha frente – porque eu quis abri-lo, leques não se abrem sozinhos – e eu estou tateando, provando um pouquinho, sonhando outro tanto, descobrindo o que quero, morrendo de medo, mas indo, vagarzinho. Porque o que eu queria tempos atrás parece que já não me serve mais.

Tempos atrás eu circulava muito segura de mim em eventos de networking, trocava cartões às centenas, achava assunto para falar com pessoas que não tinham nada em comum comigo. Esbarrei em muita gente boa, gente que somou, multiplicou. Mas também em gente pedante, mesquinha, vazia. Conheci perdedores, desesperados, oportunistas. Conheci gente bem-sucedida por mérito próprio, conheci filhinhos de papai brincando de ter empresa, conheci pessoas mal e bem intencionadas. Ingênuos? Nenhum. Sonhadores? Uns tantos. Talentosos, promissores? Alguns. Inteligentes? Muitos. Limitados? Arram.

Eu era um pouco disso tudo aí, eu era um deles. Ou melhor, queria ser, queria parecer. Não podia mesmo durar mais do que durou, ninguém consegue ser o que não é por muito tempo (é mais fácil saber o que não somos do que o que somos!). Até que não fui mal, não. Fiz tudo direitinho. Um pouco por vaidade, mas, sobretudo, para provar a mim mesma que podia. Que conseguia, que tinha competência, que tinha colhões. E tive, afinal. Encarei. Fiz quase tudo o que me propus a fazer, cometi erros e acertos. Essas coisas que só acontecem com quem faz. Valeu, mas passou. É passado, a hora agora é outra.

Isso é coisa de ser humano. Essa incoerência, essa mutabilidade. Somos incrivelmente incoerentes e irremediavelmente imperfeitos, por mais que tentemos mostrar o contrário, ser o contrário. Eu, dessa luta, já desisti. Porque ela é infantil e inglória. Não paga a pena. Minha luta é justamente aceitar – e como é difícil! – minha falibilidade, meus enganos, meus lapsos, minhas incertezas, minhas limitações, minhas volubilidades. Minha luta é encarar os desejos de mudança e não fazer de conta que eles não existem. É ser o que quero ser, que não é o que eu queria ser antes, mas agora é, e amanhã pode ser outra coisa. Por mais inconcebível e contraditório que pareça.

Começou com o sutiã. Culminará em algo que ainda não sei o que é, mas que deixo ser.

8 de abr. de 2010

deixa assim

Capital da violência ou paraíso tropical? Clichês à parte, o Rio de Janeiro me encanta tanto que chega a doer. Sonho com o dia em que poderei financiar no mínimo uma longa estada por ano na cidade. Enquanto isso, vou vivendo das memórias de cada segundo que lá passei. E fico esperando ansiosamente pela próxima promoção de companhia aérea.

O Rio, por si só, já é um clichê. Não é a imagem automática que todo estrangeiro tem do Brasil? A cidade maravilhosa entoada em mil versos? O cartão postal capaz de representar um país inteiro? Pensando assim, dá até pra dizer que todo brasileiro é um pouco carioca!

Se o Rio é o próprio clichê, é também a mais pura contradição. É onde muitos querem estar, e de onde tantos querem fugir. É onde o pobre tem vista para o mar e o rico vive atrás das grades. Abriga a intelectualidade da Zona Sul e a futilidade da Barra da Tijuca.

Visão deturpada? Estereotipada? É provável que sim. Cariocas, não se zanguem! Não passo de uma turista. Até tento parecer nativa, mas o desbotado da pele e o sotaque sem chiados me denunciam em segundos. Não tenho a pretensão de descrever o Rio dos cariocas, mas sim o de uma visitante esporádica. E cegamente apaixonada.

Mas e se eu me mudasse pro Rio? Bom exercício. Adoro me imaginar vivendo nos lugares que visito. E todas as vezes em que estive no Rio, essa imagem quase se materializou diante de meus olhos.

Eu moraria em Ipanema. Também poderia ser no Leblon. Numa daquelas ruas transversais às avenidas. O prédio teria grades e segurança. Mas, uma vez do lado de fora, eu estaria livre, a poucos passos da orla. Eu seria bronzeada e sarada, afinal, me exercitaria todas as manhãs no calçadão e na praia. Nos finais de tarde, iria com as amigas a um boteco pé-limpo e tomaria chope da Brahma. Nos finais de semana, me remelexeria nas casas de samba da Lapa.

Você dirá: não é bem assim. E eu direi: ESSE é o Rio que me dói. Assim é o Rio das minhas lembranças. Não estrague meus sonhos. É desse Rio que eu quero sentir saudades. Então, fazendo o favor, deixa assim.
***
Este texto foi originalmente escrito a mão, no dia 31 de março de 2010, na aula de Leitura e Produção Textual da Faculdade de Letras da PUCRS. Depois da correção e das pertinentes considerações da professora Jocelyne Bocchese, ele foi revisado e adaptado para melhor se enquadrar aqui no blog.
Poucos dias depois, chuvas implacáveis caíram sobre o Rio de Janeiro, fazendo centenas de vítimas. No noticiário, o Rio e as cidades do entorno são cenários desoladores. Por isso, achei que seria um bom momento para publicar o texto. O Rio de hoje - 8 de abril de 2010 - não é o que eu quero guardar na memória, mas é o que está precisando de ajuda. Força a todos os cariocas e fluminenses.

21 de out. de 2009

búzios: um lugar para voltar

Já faz algum tempo que a gente comenta sobre voltar aos lugares que gostou mais. Santa Catarina não conta, claro. Pra lá já voltamos várias vezes. Mas é que desde que começamos a viajar para mais longe, de avião, sempre avaliamos: com tanto lugar no mundo, será que um dia vamos vir aqui de novo?

Búzios foi o lugar que escolhemos para estrear nossos retornos (ah! Rio de Janeiro capital também não conta!). Não foi ao acaso: estivemos lá em fevereiro de 1999 e a viagem foi marcada por estreias: minha primeira vez num avião (Transbrasil, acredite), nossas primeiras férias fora da região Sul, a primeira viagem mais longa e longe. Naquela ocasião, dividimos as férias em duas: Guarapari (ES) e Búzios, sete dias em cada. A primeira semana não foi tudo isso. Carnaval, multidões, era quase como estar em Tramandaí. Mas Búzios tornou essa uma de nossas melhores férias.

Mais de 10 anos depois, em outubro de 2009, revisitamos a cidade que tanto nos encantou. O interessante (ou assustador) é perceber que as coisas mudaram um bocado, inclusive nós mesmos. Ora, eu tinha só 22 anos. E fui justamente escolher o meu aniversário de 32 pra voltar lá. No mínimo, faz pensar.

Uma coisa é certa: com mais grana é melhor ir a Búzios (Dã. Onde não é melhor ir com mais grana??). Há 10 anos éramos bem mais duros. Andávamos só a pé ou de ônibus. Escolhíamos a dedo onde iríamos comer, pra fugir dos careiros (o que não é muito fácil em Búzios). Dessa vez, deu pra aproveitar mais. Alugamos um carro e ficamos em Geribá, numa pousadinha lindinha chamada Bon Bini (longe das chiquérrimas, mas uma evolução em relação à simplinha de 1999). Até jantamos no tailandês Sawasdee, pra comemorar meu aniversário. Enfim, nada de esbanjamentos, só uns confortinhos a mais.

E o que eu achei de Búzios?

Eu amei Búzios. Queria morar em Búzios. Não poderia ter escolhido melhor destino para retornar.

Claro que tem defeitos, não é perfeita. Mas, de todos os lugares que já visitei, não tenho dúvidas de que é um dos melhores pra se passar as férias ou um feriadão. Um lugar que dá pra ficar um bom tempo, porque tem muita coisa pra ver e fazer. Búzios tem praias belíssimas e, ao mesmo tempo, aquele centro cheio de restaurantes ótimos, lojas descoladas e por aí vai. Junte o que tem de bom numa cidade grande com natureza e praias maravilhosas, e o resultado (ou um dos) será Búzios.

Nesses 10 anos, a cidade cresceu, mas não perdeu o charme. Ao contrário, a orla Bardot está muito mais linda (nem tinha esse nome na época), a Rua das Pedras está ainda mais badalada... e a mulherada cada vez mais chique! Sair à noite em dia de balada é uma verdadeira aula de moda. A montação é tanta que põe a Padre Chagas no chinelo. E sabe aquela dica que todas que foram a Búzios dão sobre não usar salto na Rua das Pedras? Eu a sigo religiosamente, mas tem muita mulher que não está nem aí e simplesmente usa seu MAIOR salto, sem medo de ser feliz (nem de cair ou de torcer o tornozelo). Quanta coragem!

O lado ruim do crescimento é que os morros estão apinhados de casas, mansões que interferem na paisagem e, claro, na natureza. É um problema real. Na Ferradurinha, por exemplo, tenho uma foto de 1999 do morro limpinho, só com o verde da mata. Hoje, tem um casarão cravado bem ali. Uma pena. Espero que isso não continue!

Sobre o tempo, estávamos esperando o pior. A previsão era péssima, tanto que levamos na mala dois vinhos e duas espumantes, já esperando ficar ilhados na pousada. Mas o milagre aconteceu. Tirando o primeiro dia (chegamos lá abaixo de muita água), o clima foi melhorando, melhorando, até os dias ficarem lindos e perfeitos. Acho que outubro é uma ótima época para estar em Búzios.

Pra não me estender mais, afinal ficar falando das coisas boas de Búzios não vai ser muito diferente do que tantos já disseram, essas são minhas dicas, recomendações, percepções:

- Geribá: tem muita gente que não gosta dessa praia, porque ela é extensa (mais de 2km), ao contrário da maioria das praias de Búzios, que são enseadinhas. Mas eu acho Geribá bem legal. A partir das 4, 5 horas da tarde, o sol reflete na água de um jeito especial, tem um brilho lindo. O banho é ótimo. Querendo ondas, é o lugar certo! (eu, criada nas praias do Rio Grande do Sul, sinto falta de ondas!). E a opção de se hospedar lá também foi boa. É longe e perto ao mesmo tempo. Mas tem que estar de carro, viu?

O brilho do sol na água é especial em Geribá!

Da varanda da pousada víamos a lagoa de Geribá

- Ferradurinha: perdeu um pouco da beleza com as várias barracas e mesinhas de plástico amarelas que se instalaram ali. Em 1999, havia nessa praia uma única barraca, a do seu Anastácio, um velhinho de quem compramos várias cervejas geladas. Até fotografamos seu Anastácio. Infelizmente, soubemos que ele morreu pouco tempo depois. Hoje, a filha dele toca o negócio, várias outras barracas vieram, e construíram uma casa no morro. Mudou, mas continua linda, aconchegante, convidativa. Não dá pra não ir.

Era melhor sem tanta mesa e cadeira de plástico...

A filha do seu Anastácio, outrora o único comerciante da praia, toca o negócio do pai


- Azeda e Azedinha: acho que são as mais famosas de Búzios, ainda mais agora com a novela do Maneca. São lindas mesmo, e o melhor, são bem perto do centro, acessíveis a pé. Só a Azedinha eu não consegui curtir muito, pois ela é tão pequenina que ficou difícil disputar um pedaço de areia e até de praia com tanta gente. E “tanta gente” não deve ser mais do que 30 pessoas. Na Azeda dá pra ver a pesca da sardinha e o vôo das gaivotas, que dão show. Bom de sentar e ficar o dia todo de bobeira, admirando tanta beleza.

Vindo da Azedinha tem-se essa vista da Azeda. Na praia, a pesca da sardinha


- Centro, Rua das Pedras, Orla Bardot: sem dúvida uma das melhores coisas de Búzios é a parte urbana. Caminhar na Orla Bardot (linda, linda, linda), babar nas vitrines, ir e vir na Rua das Pedras e na rua de baixo que agora não lembro o nome... uma delícia, pra quem gosta disso. É uma atração turística tão importante quanto qualquer praia. Um dos lugares mais concorridos da Rua das Pedras, a creperia Chez Michou - que frequentamos em 1999 - dessa vez não deu pra ir, tal era a muvuca. Mas não há de ser nada: o que não faltam são opções por ali. Capriche no modelito e vá balançar as tranças na rua mais charmosa do Brasil!

Prepare-se para bater perna e ver gente bonita :-)

Eu e Brigitte Bardot na orla que leva o nome da diva


- Sawasdee: o restaurante que escolhemos para comemorar meu aniversário é ótimo, com toda certeza, mas tenho uma reclamação a fazer: por que eles se acham no direito de cobrar 12% de serviço? Tudo bem, a diferença é pouca para os tradicionais 10%, mas não se trata disso. O atendimento é bom, a comida é boa, mas não é melhor do que tantos outros! Humpf, não gostei. Será que um dia poderemos dar gorjeta no Brasil de acordo com a qualidade do serviço, e não com o que o prestador de serviço ACHA que merece?

Isso aí foi antes de receber a conta com 12% de serviço


- Arraial do Cabo: nos decepcionamos um pouco, mas é que não tivemos muita sorte. Fomos no dia do feriado (sinônimo de muvuca) e o dia estava muito, mas muito ventoso. Optamos pelo passeio de barco até uma praia que não pode ser acessada de outra maneira e que é protegida pela Marinha. Para chegar lá, enfrentamos um mar muito agitado. Pavor! Pela primeira vez tive medo de estar em um barco. Tiramos belas fotos, é realmente lindo, mas não consegui relaxar. E como em todo passeio desse tipo, a maior roubada ainda nos aguardava: o tal restaurante flutuante onde todos os barcos despejam os turistas. É tão feio que não merece a visita. Apesar da sensação de dia meio perdido, é aquilo: fui, vi, não me apaixonei, mas tente um dia me convencer a voltar. Se não tiver nadica de vento, penso no caso.

Dá pra notar o pavor por trás das latinhas?

Me achando Tieta do Agreste

A conclusão da viagem é que quero voltar a Búzios muito mais vezes, um dia quem sabe alugar uma casa e ficar por lá um mês inteirinho. Estou perdidamente apaixonada. Nem sei se consegui demonstrar isso nesse post, acho que não, fiz meio na corrida. Mas pode ter certeza que, aqui dentro, meu coração bate mais forte por esse lugar.

29 de mar. de 2009

acontecimentos

Esse mês de março foi algo. Várias coisas aconteceram. Como esse blog tem por objetivo fazer um registro de fatos importantes da minha vida, então lá vai, em ordem cronológica.

Sábado 21: camarão na moranga
No sábado passado Fredo e eu fomos jantar em Guaíba com a Fê e o Ricardo, nossos afilhados de casamento. Também estavam o Dudu e a Ale (outro casal de padrinhos deles) e os pais da Fê, tia Teresinha e tio Fernando. Clima total família no ar. Muito agradável. Ainda mais com o Ricardo surpreendendo na cozinha com um belo camarão na moranga. A foto ali não está digna de tão saborosa iguaria (ainda não me entendi bem com a câmera do meu novo celular). A Fê também mandou bem na sobremesa e nos nachos de entrada.


Repeti mais de uma vez (para os distraídos, isso significa que comi três vezes, e não duas).

Domingo 22: tchau, vô Cici
No domingo (22) recebi a notícia do falecimento de meu avô, pai do meu pai. Costumávamos dizer que o vô Cici já tinha morrido e que aquele era, na verdade, ele "mumificado". Bom, não era bem assim. Ele estava vivinho da silva, embora completamente senil, com seus incríveis e improváveis quase 100 anos. Ninguém sabia ao certo se eram 96, 98... não que faça muita diferença. É quase um século de vida.

Era meu último avô vivo. Finalmente descansou (eufemismo pouco é bobagem). Deu um trabalho danado pra minha tia Mita (sempre sobra pras filhas mulheres, não é?), que cuidou dele até o último momento com desmedida dedicação. Quando soube da notícia, decidi, para surpresa de toda família, ir ao enterro. Tinha prometido isso a mim mesma uns tempos atrás. Se não fizesse, o remorso me perseguiria para o resto da vida. Lá fomos, Fredo, eu, pai e mãe rumo a Pelotas. Ele seria enterrado na famosa "Povo Novo", o vilarejo - hoje promovido a cidade - onde meu pai nasceu há quase 72 anos.

Bom, as coisas não aconteceram exatamente como planejamos. Se não fosse triste, era piada: chegamos atrasados ao enterro. Não pude me despedir do meu avô. Nem eu, nem meu pai. Foi uma sucessão de trapalhadas, um festival de "achismos". Resultado: chegamos meia hora depois. Tristeza. Frustração. Decepção. Mas a certeza de ter feito a coisa certa. Vô Cici, descanse em paz.

Se atrasar para enterro? Ahan. Aconteceu comigo.

Quinta-feira 26: a entrega das chaves
Finalmente minha mãe tem as chaves de seu novo apartamento nas mãos. Se tudo correr bem, a mudança acontece na semana que vem. Foi uma longa espera, incluindo uma indesejável mudança para um sobradinho alugado atrás da PUC. Alívio para a família inteira.

Uma nova estapa inicia para a família Azevedo.

Sexta-feira 27: na companhia de amigas
O almoço foi no Daimu pra comemorar os aniversários da Gabi e da Lu, as Doxxetes. Duas arianas na minha vida. Uma vez me disseram que áries é o meu signo de oposição. Parece negativo, mas acho que não é não. Se fôssemos todas muito iguaizinhas, não teria a graça que tem.

Parabéns, gurias.

E nessa sexta também recebi a visita da Eti, minha amiga querida que mora no Rio. Infelizmente, ela veio pra cá por um motivo muito triste, a perda de alguém da família. Mesmo assim, trouxe pra minha casa seu sorriso fácil e suas histórias sempre engraçadas. Uma injeção de ânimo em pouco mais de uma hora e meia de conversa.

Eti, tão longe, tão perto.

14 de jul. de 2008

memórias (parte I): piadas

Estava agora lendo o blog do Bruno Medina, o cara do Los Hermanos que escreve tri bem. Ele fez um post sobre piadas, contando o quanto odeia as pretensas historietas engraçadas. Qualquer pessoa sem talento pra piadista se identificaria com o que ele escreveu. Eu nunca proclamei odiar piadas, mas pensando bem, acho que odeio sim. E tenho até motivos bem fortes para isso.

Tem umas coisas da infância da gente que, definitivamente, podiam desaparecer da nossa memória. Mas são justamente essas que ficam. E não é que minha seletiva memória me obriga a guardar duas situações relacionadas a piadas? Uma delas foi altamente constragedora. Bom, as duas foram.

Eu devia ter uns 6 ou 7 anos e me caiu nas mãos um livro de piadas. Meus padrinhos estavam passando uns dias lá em casa, e o meu padrinho tinha fama de bom piadista. Acho que o livro era dele. E eu, considerada uma criança extrovertida, esperta e engraçada, fui encorajada pelos (malditos!) adultos a escolher uma piada qualquer no tal livro e ler em voz alta para toda a família.

Jamais confie no uni-duni-tê. Eu caí numa piada que, além de longa (devia ter umas 5 páginas), era praticamente pornográfica. Falava de uma velhinha que, depois de décadas fazendo amor com o marido, descobriu que se colocasse um travesseiro embaixo da bunda, ficava mais gostoso. Nada demais, se eu não tivesse 7 anos. Sem entender lhufas, eu comecei a ler a piada bem alto. Os adultos quiseram enfiar a cabeça num buraco. O horror foi tal que eles me mandaram parar no meio. Não sei exatamente o que aconteceu depois, mas acho que eles aprenderam a nunca mais pedir para criança ler piada de sacanagem.

Na segunda situação, eu tinha mais ou menos a mesma idade e fui fazer uma daquelas charadas que vinham no papel do chiclé (será que ainda existe chiclé? Com charada, duvido). A pergunta completa eu não lembro, mas era daquelas "qual a semelhança entre isso e aquilo"? O problema era que, até então, eu só conhecia charadas de diferença, não de semelhança. E, como meu vocabulário na época não era lá muito vasto, eu simplesmente resolvi que semelhança e diferença eram sinônimos. Aí, é claro, ninguém matou a charada e quando eu li a resposta, queriam minha cabeça!

Acho que peguei trauma de piada depois dessas. Nunca me dei bem contando, já desisti faz tempo. E vamos combinar que, invariavelmente, quem conta piada é chato. Já viu alguém legal e naturalmente divertido adorar contar piada? Não existe. Abaixo os piadistas. E não incentive seu filho a ser um: ele pode se traumatizar para o resto da vida.

2 de abr. de 2008

2 de abril


Dois de abril é uma data de comemoração dupla pra mim. Primeiro, é o aniversário do Bolívar, meu sobrinho, afilhado, filho da minha irmã, enfim. Então é aquela coisa: o guri que até pouco tempo assistia Discovery Kids aqui em casa (uns desenhinhos só um pouco mais evoluídos que Teletubbies) agora já tem 9 anos de idade. Pode ser pouco ainda, mas quanto falta pra ele começar a querer sair, a ficar, a usar roupa de marca, hein? Não muito. Não muito.

Ai, ai... essa sensação de que o tempo voa acaba comigo.
O piá fazendo careta na foto é o próprio. Bolívar Azevedo Cavalar, figuraça. Boli, dinda te ama. Feliz aniversário!
O segundo motivo para comemoração é algo bem meu. É que no dia dois de abril de 2002, ou há exatos seis anos, eu parei de fumar. Fumei meu último cigarro e that's it. Encerrei o assunto, nunca mais voltei. Sou tri orgulhosa disso e nunca esqueci o dia, até porque era o aníver de 3 aninhos do Boli. Então marcou mesmo. E seguramente foi uma das melhores coisas que eu fiz na vida.
Dois de abril vai ser pra sempre um dia pra celebrar.