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2 de mar. de 2010

bons e maus palavrões


O Fredo não gosta que eu fale palavrão. Ele fica chateado, por exemplo, quando a gente discute por bobagem e eu meto um palavrão no meio. Tipo, ah, vai te foder. Ele fica horrorizado, tadinho. Não sei como ele ainda não se acostumou, porque sempre fui meio desbocada.

Mas tem isso, né. Tem gente que não gosta de palavrão. Pessoas que têm os ouvidos sensíveis e acham que dá pra dizer o que se quer sem lançar mão deles. O Fredo mesmo, só fala em situações extremas, como pra xingar alguém no trânsito. "Vai tomar no teu cu" é a expressão preferida nessas ocasiões. E mesmo quando está bem brabo comigo, ele nunca me manda pra lugar nenhum. É um gentleman.

Só que eu acho que o palavrão tem um papel importantíssimo na nossa linguagem. Não adianta, tem coisas que a gente quer falar que só um palavrão consegue materializar. Não dá pra usar outras palavras quando a intenção é mandar alguém "se foder" ou "tomar no cu". Eufemismos como "vai pro inferno" ou "vai te catar" não têm o mesmo impacto.

E tem outra: hoje em dia a gente quase nunca fala palavrão pra insultar alguém. Na maioria das vezes ele serve pra enfatizar alguma coisa. O palavrão perdeu a conotação ofensiva no uso cotidiano. A gente diz que uma coisa é “muito afudê” (ou "a foder", sei lá como se escreve isso) quando achou muito bom, tri legal. Dizer que algo é "foda pra caralho" também é um super elogio. Chamar um amigo de "filho da puta" (ou "fiá da puta") ou a melhor amiga de "puta" não vai arruinar a amizade.

O significado literal dos palavrões, aliás, pode ser objeto de uma análise muito interessante. Por exemplo, "filho da puta" nunca, nunca quer dizer que a mãe do interlocutor trabalha na zona do meretrício. "Vai te foder" nunca significa que eu queira que o outro vá copular. Dizer que alguma coisa "é foda" não quer dizer que ela seja uma relação sexual. "Vai tomar no cu" também não significa que... ahn, você entendeu.

Eu vejo gente muito educada falando palavrão. Digo educada em termos de formação acadêmica mesmo. E pessoas mais velhas. Empresários. Professores. Médicos, advogados. TODOS falam palavrão. "Escrevi uma petição que ficou do caralho". "Hoje o plantão foi foda". "Mas que baita filho da puta, tirou 10 na prova". Sempre com a melhor das intenções.

Eu prefiro palavrões assim, bonzinhos, embora use as duas modalidades com certa frequência. É que a questão não é o mau palavrão em si, mas sim que, se você precisou dele, é porque estava em apuros, meteu-se em alguma situação complicada. E aí o palavrão é o menor dos problemas.

Seja como for, tem horas que só um palavrão consegue exprimir nossas mais profundas emoções - boas ou más.
(que do caralho essa frase)

10 de fev. de 2010

uma barata a menos no mundo


Tem uma barata no banheiro do escritório. No banheiro que usamos como uma espécie de copa-cozinha-área de serviço. Nesse exato momento ela está ali, fuçando a louça da pia.

A culpa é minha, quem manda querer ser elegante comendo banana? É que eu tenho a mania de comer banana com garfo, picada em rodelas numa tigela de vidro. O problema é que a tigela é prontamente depositada sobre a pia, ainda cheia de resíduos da fruta. Só penso em lavá-la no final do dia, ou, pior, na manhã seguinte.

É, eu dei muito mole pra essa barata. Lá está ela. Lambendo os restos da minha banana.

Elas até que são raras por aqui, as baratas. Em quase quatro anos, essa deve ser a terceira que aparece. Também, com o calor que tem feito, elas estão se proliferando como nunca. Submergem de todos os buracos da cidade, escalam paredes, canos, saídas de ar. Sei lá como essa veio parar aqui. Barata não tem medo de altura, nem de escuro. Nem de cheiro ruim.

E agora, o que eu faço? Grito? Hoje em dia eu não tenho mais o pânico de antigamente, não berro, não subo na cadeira nem saio correndo. Já fiz muito isso, mas não mais. Ora, sou adulta. Sei que é ela quem deve estar morrendo de medo de mim. Sou muito maior do que ela. Posso matá-la em um décimo de segundo. Ela deve ter conhecido milhares que morreram assim, assassinadas por alguém como eu.

O problema é o nojo. De aranha eu tenho medo, porque tem veneno, e aquelas perninhas, e... Mas pelo menos aranha não se cria em esgoto, não curte um cocô. Que eu saiba. Até lagartixa eu aprendi a respeitar. Me convenceram que ela se alimenta de insetos, então antes uma lagartixa do que um monte de bichinhos com asas em volta dos meus lustres. E elas também não andam sobre excrementos, até onde eu sei.

Mas barata não. Essas são da pior espécie possível. Feias, imprestáveis. E não me venha com aquele papo de equilíbrio ecológico. Eu duvido - DUVIDEODÓ - que a natureza ia sentir falta das baratas. Bem capaz.

Voltando à barata do banheiro. Se eu tentar matá-la, ela vai fugir, e eu vou ter que correr atrás dela. Coisa desagradável. Além de arriscada! Posso tropeçar, cair, quebrar alguma coisa. E com certeza vou gritar. Muito. Aí os vizinhos podem estranhar, vão bater aqui, perguntar se está tudo bem. Melhor não. (ok, eu acabei de dizer que os gritos eram coisa do passado, mas se houver perseguição não tem jeito, vai ter sonoplastia).

E se eu resolver realmente acabar com a raça dela, não posso esquecer que estou usando uma rasteirinha. Como vou dar a necessária chinelada? Nem é nova a sandália, mas é uma das que eu mais gosto. Estou no trabalho, não costumo trabalhar de havaianas.

E mesmo se eu tivesse um par de chinelos aqui, só de pensar na chinelada me vem à cabeça aquele "creck" inevitável, o barulho da morte da barata, a casquinha se quebrando, a gosma se espalhando, e grudando na sola da minha rasteirinha!

TEM que haver outra maneira.

Claro.

Marido.

Nessas horas, e em muitas outras, eu sou a mulher mais mulherzinha que existe. Estou sozinha no escritório, já passa das dezenove, o Fredo está vindo me buscar. Vou convidar para dar uma subidinha. E está tudo resolvido.

Pá!

Meu herói. Uma barata a menos no mundo.